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A Bicicleta Que Tinha Bigodes

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– Tio Rui, posso falar dos restos de letras que a tia Alice tira do teu bigode à noite?
– Podes.
– Não vão querer vir na nossa rua roubar a caixa de letras?
– Não. Ninguém vai acreditar.

Nós acreditamos. Na rua de Ondjaki devia haver  mesmo uma caixa de letras, da qual ele nunca mais se separou! Transparentes, editado o ano passado pela Caminho, valeu-lhe ontem o Prémio José Saramago. Em Maio, o escritor angolano já tinha visto um outro livro ser premiado. A Bicicleta Que Tinha Bigodes foi considerado a melhor obra de 2012 para crianças e jovens  pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil brasileira. O mesmo livro que em Portugal já recebera o Prémio Bissaya Barreto de Literatura.
A Bicicleta Que Tinha Bigodes é uma história passada num bairro de Angola, desencadeada pelo anúncio de um concurso da Rádio Nacional que se propunha oferecer uma bicicleta à criança que apresentasse a melhor redacção.

É um hino à imaginação e à amizade, mas também às palavras e à escrita. “Nas bermas de uma língua toda desportuguesa”  conseguimos vivenciar a criatividade de três crianças que, querendo ganhar a bicicleta, buscam a ajuda do escritor importante que vive ali mesmo, na sua rua. O Tio Rui inventa estórias e poemas que até chegam a outros países muito internacionais, como a “Julgoeslávia”.

Cedo se adivinha que  o vencedor do concurso não sairá desta rua e que  isso  não é assim tão relevante.  Enquanto leitores, precocemente descortinamos que tudo o que estas crianças vão ganhando, nas suas tentativas, é muito mais importante.
 


A redacção acaba por não sair, mas à Rádio Nacional de Angola chega uma carta. Hilariante e simultaneamente doce. Capaz de nos” arrancar” umas sonoras gargalhadas ao mesmo tempo que nos faz pensar nas coisas sérias da vida… São assim as cartas das crianças.

É uma história sobre gente. Que vive na mesma rua. Que cria laços. Mas onde também vivem animais, como a lesma Senghor, o cão AmílcarCãobralo gato Ghandi ou os gafanhotos… Narrada num tempo e num espaço, onde a luz eléctrica é muitas vezes uma  miragem, mas em que a televisão, especificamente as novelas brasileiras,  assume papel relevante. A escrita de Ondjaki  faz-nos desejar crescer livres e desprendidos, como só em África parece possível.

Numa entrevista ao Ler Mais, Ler Melhor, Ondjaki disse que se divertiu muito a escrever este livro. Que foi feliz. Nós também, quando o lemos.

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