Chapéus há muitos, mas os de Jon Klassen são únicos.
Entre outras coisas, os dois livros têm em comum não só um final invulgar, com uma boa dose de humor negro, como também um pequeno ladrão de chapéus e um legítimo dono de proporções que impõem respeito.
Em Quero O Meu Chapéu, de que falámos aqui, o protagonista é um urso bonacheirão que, de forma educada, vai perguntando a todos os animais com que se cruza, se viram o seu chapéu. O livro reserva-nos um final surpreendente, quando, sem qualquer rodeio, o simpático urso acaba por comer o pequeno coelho que se tinha apoderado do seu chapéu.
Brilhantemente construído, o livro conta-nos em simultâneo, duas histórias opostas, a das palavras e a das imagens. Enquanto o pequeno e confiante peixe fala do roubo, das circunstâncias em que o cometeu, do mais que provável desconhecimento do dono do chapéu e do seu plano de fuga, as imagens vão revelando uma realidade bem diferente.
A contradição entre as duas histórias é uma evidência. As imagens mostram ao leitor o oposto dos pensamentos que o pequeno peixe lhe vai confidenciando. Por exemplo, enquanto ele nos conta que roubou o chapéu quando o peixe grande estava a dormir e que ele talvez não acorde tão cedo, vemos o peixe grande de olhos bem abertos… Quando ele invoca a esperança de que mesmo que o outro acorde, talvez não dê pela falta do chapéu, o olhar do peixe grande é bem elucidativo de que já deu pela falta dele…
Klassen volta a um jogo minimalista de que tanto parece gostar, colocando no olhar das personagens uma boa parte da resolução do enigma das histórias. A forte convicção de que nunca será apanhado e a segurança dos seus planos de fuga são contrariados, a cada dupla página, pelos planos dos olhos do peixe grande.
É um jogo hilariante, em que o leitor cedo descobre que sabe algo que escapa ao pequeno peixe. Apetece chamá-lo, avisá-lo… que o crime não compensa! Os leitores mais novos desassossegam-se a cada confissão desmentida pelo que os olhos vêem! É essa originalidade, consubstanciada no facto do leitor saber mais do que o narrador, que parece desconhecer o seu próprio fim, que torna a história tão genial!
Consciente do seu crime, o pequeno ladrão organiza a fuga para um lugar onde as plantas crescem e ficam grandes e altas, muito juntinhas. Um sítio absolutamente seguro, onde se vê muito mal, o que lhe confere a certeza de nunca ser encontrado. É aí que o leitor o vê pela última vez, emergindo no seu ultra secreto esconderijo. E mais não dizemos.
Depois da visita dos ladrões de chapéus, resta-nos aguardar que a Orfeu Negro traga o próximo livro. Até apetece dizer: não interessa qual, Mr. Jon Klassen é sempre genial!
