Estamos em 1933. Na companhia da mãe e do irmão, Anna, uma menina judia de nove anos, deixa Berlim para se juntar ao pai que os aguarda em Zurique. Para trás, fica quase tudo. Na pouca bagagem que conseguem levar, cabe ainda a esperança de que aquele pesadelo termine em breve e que a vida possa ser retomada como a deixam.
A história baseia-se na vida da autora, Judith Kerr, também conhecida por outros títulos de literatura infanto-juvenil como O Tigre Que Veio Tomar Chá. Publicado pela primeira vez em 1971 e considerado um clássico, Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa voltou a ser editado entre nós, em Setembro último, pela Booksmile.
Zurique será apenas a primeira paragem desta família, a quem estão reservadas inúmeras dificuldades e que passa a lutar diariamente para se adaptar a realidades bem diferentes. Seguem-se Paris e Londres. Novos países, novas línguas, hábitos diversos a que se juntam os inevitáveis problemas da falta de dinheiro e de trabalho.
Anna vive tudo isso, mas com a ingenuidade própria dos seus nove anos e o desconhecimento da dimensão dos acontecimentos que se vão sucedendo. Judeus, refugiados, são palavras que sabe que se lhes aplicam, mas a menina não se sente diferente por isso. Só a iminência de ficar sozinha com o irmão, a faz recear sentir-se mesmo uma refugiada. Seja onde for, se a família estiver junta isso só pode significar que estão em casa. O que não impede que tenha saudades de Berlim, dos brinquedos, da vida que era deles…
Max, o irmão, explicara-lhe que os nazis eram os que iam votar em Hitler e que os que votavam contra, como eles, eram os sozis. Anna não sabia muito disso, mas sabia que um dia, queria ser famosa como o pai! E que todas as pessoas famosas tinham passado por tempos terríveis (…) Era óbvio que era preciso passar por uma infância difícil caso se pretendesse ser famoso.

Carla Maia de Almeida que assina a tradução e o prefácio do livro, relembra que assistimos à maior vaga de refugiados desde o tempo da Segunda Guerra Mundial, citando uma notícia do jornal em que leu que “metade dos 60 milhões de deslocados e refugiados do mundo são crianças, a maioria com menos de onze anos” ( Público, 20/6/2015).
Judith Kerr tem, hoje, 92 anos. Será que alguma vez lhe ocorreu que ainda teria tempo para voltar a ouvir tantas vezes a palavra “refugiados“?


